Vida após o transplante

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Para muitos, o transplante representa a chance de um recomeço, no entanto não sem desafios. Vários problemas de saúde são relatados, desde reações de rejeição ao novo coração, à diabetes e hipertensão arterial, infecção por vezes muito grave e problemas renais. Problemas socioeconômicos também estão presentes com a possibilidade rara de retorno ao trabalho. No entanto, nas narrativas vemos superação, força, gratidão, cuidado constante, e a transformação que uma nova chance oferece. 

Auricélia, por exemplo, conta como voltou a viver plenamente, sentindo-se forte e cheia de vida, mesmo com os cuidados para proteger seu novo coração. São narrativas que inspiram, conscientizam sobre a doação de órgãos e celebram a beleza de florescer novamente.

Não, levo vida normal. Vida normal, assim, né, que não canso mais. Eu sei que é... Muita coisa é limitada, assim... Limitada não, né? Que a gente toma... Volta a ter o mesmo cuidado pro coração não rejeitar. Mas eu me sinto bem, ótima mesmo.

 

Andressa revela que mesmo com limitações, há alegria no cotidiano e maturidade nas escolhas. Deixou o ritmo acelerado para valorizar o essencial: saúde, vínculos e bem-estar. É sobre viver o presente, reconhecendo o quanto cada momento importa.

Não sou 100% o que era antes, mas faço muitas coisas. Tenho um limite. Minha vida é saudável... vida normal.


Também deixou para trás as noitadas e valoriza encontros com amigos e vizinhos.
Hoje em dia não. Sou Cinderela da meia-noite. Dez horas já começam a doer os pés. Noitada já não é pra mim.

 

Cícero considera o seu transplante como um renascimento pela fé e pela medicina. Mesmo diante das dificuldades, manteve o bom humor e a fé como aliados.

Desânimo não. Eu sou brincalhão. [...] Deus quem me dá a força para tudo isso, que Deus não quer ver o cabra triste. E Deus é dono de tudo. É só confiar mesmo. Que o que eu passei aí, eu não sabia que ia sobreviver não. Eu fiz foi nascer de novo. Os médicos fica bestinha quando vê.

 

Claudia é muito grata por possuir uma rede de apoio. Ela tem muito carinho pelas amizades construídas durante a reabilitação. Fala do apoio mútuo que encontrou no ambiente hospitalar, e dos novos hábitos que desenvolveu.

A Dona Gorete mesmo, converso muito com ela. A gente... apesar que eu não conheci ela aqui. Eu conheci ela na, na, na, nas Clínicas, porque eles fizeram a... Ah, esqueci agora o nome, que chamou quem era transplantado para fazer um exercício. Aí a gente conheceu lá, aí trocamos telefone, ficamos, Tinha um grupo, assim, cada um tinha o telefone de cada um, assim, mas ela ficou mais eu.

"Ah, já foi melhor, eu to parecendo uma velhinha, ficar mais em casa. Prefiro ficar mais em casa, na Netflix, na novela. Mas quando dá para dar uma voltinha, sair, eu dou. Saio com a minha menina."

 

Erianderson recomeçou com vínculos fortalecidos. Durante a espera, criou laços com outros transplantados, e nos fala também do benefício de uma rede de apoio solidária.

"Eu tenho uns colegas que é um de Manaus, outro é da Bahia, outro aqui é de Recife, outro é de Pesqueira. [...] Foi jogo rápido, mas esses que eu conheço, realmente a gente praticamente conviveu junto nessa luta."

 

Danilo demonstra muita alegria em suas conquistas diárias na força física. A vida pós-transplante trouxe disposição para atividades físicas e novas metas.

Hoje faço exercício, faço caminhada. É, tenho umas maromba lá e faço exercício, até vinte quilos eu levanto.

"Só me preocupo em fazer os exames. Obedecer, beber água como ele recomendar, tudo certinho, pronto. Eu não fico preocupado: ah vou medir minha pressão, eu quero saber como é que tá. Não, eu mesmo não tenho isso e eu não me considero assim transplantado, ah eu não posso fazer isso porque sou transplantado, eu não me considero assim."

 

Edmar possui a disciplina como forma de proteção. Reconhece o medo da recaída como motor para uma disciplina intensa.

"Eu tenho medo de voltar para o hospital. 

[Entrevistador: Você tem medo?] 

Tenho, por isso que mantenho muita disciplina, porque não é fácil ter medo […] Por isso eu mantenho muita dieta, porque não é fácil."

 

Elindinaldo possui muita gratidão por poder viver com autonomia. Antes, tarefas simples como amarrar os sapatos exigiam ajuda. Hoje, agradece por ter recuperado sua autonomia.

"Graças a Deus me alegro, tem vezes que eu, eu fico até alegre. Me alegro com a situação, com a situação. Porque são poucos que tem essa chance de ter um transplante e continuar bem. Graças a Deus, esse transplante me fez mais feliz pela minha saúde, pela minha saúde. Porque quando você se levanta e sabe que tá bem, é bem diferente do que o que você for fazer ter que ter uma ajuda. Porque chega uma parte que até pra amarrar um sapato, a esposa que tem que amarrar. Um cinto que não poderia abaixar a cabeça, não poderia baixar a cabeça. Nem dormir em colchão reto, né? Tinha que tá com um travesseiro pra levantar a coluna."

 

Teresinha após enfrentar muitos desafios, a realização do transplante significou para ela uma nova etapa. A recuperação foi um processo de aprendizado, no qual cada dia passou a ser valorizado como uma oportunidade única.

"Eu faço minhas coisas e queria... Que minhas coisas de casa eu não fazia mais. Tinha dia que eu nem levantava da cama. Antes do transplante, eu não levantava. Eu mal me sentava. E depois do transplante não. Minha vida ficou normal, faço tudo. Vou pra rua, resolvo as minhas coisa."

 

A luta pode ser silenciosa contra a rejeição. Receber um novo coração é um recomeço, mas nem sempre um caminho tranquilo. A rejeição é um lembrete doloroso de que o corpo reconhece o órgão como algo estranho — mesmo quando esse órgão representa a única chance de viver. Jonean, ao relatar o medo diante da rejeição e o consolo encontrado na fé, mostra que o coração transplantado não vem sozinho — ele traz a necessidade constante de coragem.

"Teve uma vez que eu fiquei internado por causa de rejeição. O médico disse que o corpo tava lutando contra o coração. Aí aumentaram os remédios, fiquei lá tomando soro direto. Eu fiquei com medo, porque já tinha passado por tanto... mas Deus me deu força."

 

Donizete também viveu essa angústia de forma intensa: passou por um processo de rejeição que trouxe medo, fragilidade e um abalo em sua confiança no próprio corpo. 

“Aí trocou o coração, eu me sinto muito bem. Não tive um, senti nada diferente assim, de cansaço, dor, nada. Mas me surgiu uma rejeição um pouquinho acima do que é esperado, que é esperado uma rejeição, nesses casos. E aí foi tratado. A rejeição ficou sendo, foi controlada. Eu tive uma alta, mas aí eu precisei voltar que eu tinha, tinha surgido um vírus que é do nosso corpo mesmo, não sei o nome agora, que tem que tomar um remédio, um remédio chamado Gan.

[Entrevistador: Ganciclovir.]”

A seguir Donizete, em sua entrevista, nos relata sobre a infecção que o fez viver um grande medo de morrer, bem maior que a rejeição do coração doado. As infecções pós-transplante são outro grande desafio. 

“Aí eu vinha no hospital dia, todo dia, uma vez por dia. E aí eu fiquei, no mesmo dia que eu fiquei internado de novo. Eles me chamaram porque tinha tido, apareceu alguma coisa no meu exame. Aí eles me ligaram para vir para cá. Aí eu vim. Nesse ínterim, eu peguei no hospital uma infecção de um fungo que vai para o pulmão, que é o pulmão. Foi uma, uma infecção dentro da enfermaria que outros pacientes pegaram e era uma infecção fatal. Foi-se quatro colegas na mesma situação, em seguida.

[Entrevistador: Também transplantados como o senhor?]

Creio, eu, mas por causa desse, desse fungos, aí mandaram fazer um exame mais criterioso de ir no pulmão e tirar a parte de cima para detectar. E detectou-se um vírus que os médicos me disseram que o antibiótico que estava sendo dado não era suficiente para esse vírus, fungos. E aí eles atualizaram a medicação, deram a medicação mais certa e aí começou a regredir. Mas eu cheguei a ser..., pessoas que eu ia partir mesmo, tinha partido quatro já com esses mesmos sintomas.

[Entrevistador: E eles estavam juntos com o senhor na enfermaria?] 

Junto comigo na enfermaria.”

 

O transplante também pode desencadear outras doenças crônicas, como diabetes e hipertensão. Gilson passou a lidar com essas condições após o procedimento, tornando a rotina ainda mais complexa. O controle rigoroso da alimentação, o uso contínuo de medicamentos e a vigilância sobre o corpo tornam-se parte da nova vida, muitas vezes com impactos na autonomia e no bem-estar emocional.

“Aí Deus foi maravilhoso demais. Aí conversou comigo, disse que eu ia passar por muitas provações, que ele queria ver a minha fé, que eu tinha nele. Aí pronto. Hoje em dia estou aqui por honra e glória dele. Agora eu fiquei hipertenso que eu não era, fiquei diabético, que eu não era.

[Entrevistador: Por causa dos medicamentos do transplante?]

Agora, pouco tempo agora, descobri que eu to com glaucoma, muito avançado. O médico passou um óculos, já comprei, só falta pegar. Minha esposa, acho, foi até hoje pegar, e passou dois colírios pra mim, aí eu to usando já o colírio.”

 

Problemas renais também são frequentes. Alguns pacientes precisaram iniciar diálise após o transplante, o que alterou significativamente a qualidade de vida. Maria do Carmo e José Delson relataram as dificuldades de fazer hemodiálise várias vezes por semana, as limitações que isso impõe ao dia a dia e o cansaço físico e emocional que acompanha o tratamento.

“Gosto de viver. Eu só não estou bem melhor porque eu ainda faço hemodiálise, entendeu? Mas se não fosse isso, eu doida para viajar. Mas eu fico presa.

[Entrevistador: E a hemodiálise foi por que? Por conta do transplante?]

Do transplante.”

 

“Bem, eu era sadio, quer dizer, aí eu não sei. Não sei se é assim, se surgiu por conta de alguma, de algum medicamento ou sim, eu também tenho, também eu, na minha época, eu bebia muito também, bebia bastante. E daí que. Dr. Rodrigo falou que eu tenho que me tratar dos rins, tomar bastante água para ver se o rim evolui. Só que chegou o ponto de eu, pra fazer hemodiálise, né? Mas aí eu vou dizer o Dr., é, sobre esse procedimento de rim, isso não só surge com quem tem transplante, nem nada não. [...] Quer dizer que, eu vou falar o que o médico falou para mim: ‘Ói Delson a doença não escolhe novo, nem velho não.’ [...]

[Entrevistador: Mas o senhor vai precisar fazer o transplante de rim, também?]

Bem, aqui, logo no início, assim que eu estava aqui me tratando aqui, já comecei a fazer hemodiálise aqui. Aí o médico daqui falou que era irreversível esse caso. Só que aí, para evitar, que nem eu pedi para transferir lá para perto da minha cidade, eu estou fazendo hemodiálise em Garanhuns.”

 

Além dos desafios médicos, há um impacto forte no emocional. A consciência de que precisam conviver com um coração que não é seu, o medo constante de rejeição ou complicações e as mudanças no corpo e nos hábitos provocam uma espécie de luto da vida que se tinha antes. 

Cada uma dessas histórias mostra que a vida após o transplante não é apenas um retorno à rotina, mas a construção de uma nova etapa — feita de adaptações, cuidados, conquistas e desafios. São trajetórias que inspiram, emocionam e reafirmam: a doação de órgãos salva vidas. E cada vida salva carrega um mundo de possibilidades.