Impacto Sobre os Estudos

Vários participantes ao adoecerem jovens se encontravam estudando. Muitos interromperam os estudos temporariamente, dada a intensidade dos sintomas, além das dificuldades com a curiosidade ou mesmo com o preconceito dos colegas ao perceberem diferenças.

Yara teve de enfrentar reações dos colegas na escola e acabou interrompendo os estudos  por não estar bem física e psicologicamente. Atualmente é uma estudante universitária.

“nessa época eu estudava, e... eu tive preconceitos, passei por preconceitos na escola, e... eu fiquei muito debilitada. Como eu tenho uma irmã gêmea idêntica, então as pessoas notavam muita diferença, e aí ela era mais branquinha então... por onde eu passava com ela, as pessoas praticavam esse tipo de preconceito: ‘Por que sua irmã tá branquinha e você tá pretinha?’, ‘ei, você tomou o quê?’ [...] Depois do quarto mês, eu tive acompanhamento psicológico por apresentar depressão no tratamento, e aí aconteceu realmente de fato as reações, que eu passei mais tempo no hospital do que na escola. Não aguentava mais ir pra escola, os remédios me faziam sentir dores nas pernas, cansaço físico, daí eu tive a diabete, é... apareceu diabete e problema de pressão alta. E aí eu acabei não conseguindo ir tanto na escola.”

 

Maria da Saúde também interrompeu os estudos pela intensidade dos sintomas pouco depois do diagnóstico, e acabou não voltando aos estudos.

“Sofri preconceito, porque as pessoas… não sei se é preconceito ou curiosidade, os amigos de escola ficavam perguntando: ‘por que é que você teve que ir para hospital, por que é que você trancou a matrícula?’ Porque eu tive que fechar a matrícula. ‘Por que você não vem mais?’ E a escola na qual eu estudava, a gente era referência em handebol, e eu jogava, e tive que parar. Eu ficava muito receosa em falar porque, na época, as pessoas tinham esta doença como contagiosa, muitas pessoas pensavam assim. Então, eu não sofri um preconceito tão grave.”

Izaías nos conta que o período mais difícil foram os primeiros anos da doença. Na escola, ele não era mais capaz de fazer anotações das aulas ou de realizar provas escritas. Não contou que tinha hanseníase a ninguém na escola, nem aos professores. Tornou-se um menino calado que pouco conversava sobre sua vida. De pouco em pouco, parou de frequentar a escola e decidiu interromper seus estudos. Ficou cerca de dois anos e meio praticamente recluso em casa, e precisando de auxílio para atividades básicas, sentindo-se fraco e desanimado. “Eu não sentia vontade de fazer nada”.

Geraldo, diagnosticado com 8 anos, na década de 70, ficou na colônia após a morte de sua mãe, e nos conta que As Irmãs ficaram tomando conta de mim, as Irmãs foi minha segunda mãe, a mãe que eu não tive na vida, entendeu? Então elas me deram tudo, a oportunidade pra estudar, mas assim, eu num estudei mais, num fiz mais profissão, porque a gente quando é jovem não pensa muito, mas se eu tivesse pensado, eu tava hoje assim profissionalmente bem mesmo, mas não tou, não sou arrependido de nada. A gente tem o meu carro, tem dois carros, a gente tem uma casa boa, tudo com a ajuda delas, entendeu?”

 

Felipe, por ser estudante de medicina, foi tratado por um de seus professores, não teve dificuldades em continuar seus estudos, mas fez uma observação sobre seus colegas, a qual não entendeu como preconceito, porque acredita que os seus colegas não tinham conhecimento necessário para compreender a situação clínica, mesmo estando todos estudando numa área endêmica.

“Assim, eles não tiveram certeza [da hanseníase], mas eles caçoavam de mim por causa da férula, que eu usei por um tempo, a férula de Harris, que você usa pra não deixar torcer o pé. É um equipamento que você coloca aqui de couro e vem com uma mola que entra nesses buraquinhos que tem no sapato, porque aí quando você anda, ele levanta o seu pé pra você não torcer o pé. Como eu estava com o pé parético, eu tinha perigo de andar, virar o pé e quebrar o pé ou torcer o tornozelo. Aí eu usei isso por um tempo, e o pessoal caçoava da férula, falava ‘ué, que diabos você tá usando essa mola aí?’ não sei o quê, só isso. [...] quando passei pela faculdade, eu não sabia que a hanseníase tinha como ser primariamente neural. Eu imaginei que sempre tinha que ter a mancha pra depois desenvolver os sintomas, ter hipoestesia e depois ir desenvolvendo. Não sabia que podia ser neural primária direto, então acredito que nem eles sabem.”