3.4.1 Dificuldades

Temas

As dificuldades no relacionamento com a equipe de profissionais de saúde que os pacientes internados relataram podem ser sumarizadas em queixas de negligência e desassistência por parte de médicos e enfermeiros, maus-tratos e má vontade da equipe em atender as demandas dos pacientes, rispidez, agressividade, impaciência, procedimentos incorretos e dolorosos (por vezes significados como verdadeira tortura). Houve situação em que a paciente diz ter precisado fazer escândalo para ser atendida. Apenas uma paciente do SUS relatou dificuldades dessa natureza, ao passo que todas as demais queixas foram reportadas por pacientes que estiveram internados em hospitais privados.

"O grau de enfermagem era tão ruim, tão ruim, tão ruim, eu fui tão maltratada, eu chamava por um médico, não vinha médico. Eu tive o primeiro médico que me atendeu quando eu cheguei, lógico, senão não teria nem sido internada. Você tem que ser recebida pelo médico dentro da UTI, você tem alguém. E depois eu chamando não veio, três dias depois apareceu uma boa médica, que até eu nem tinha chamado não, ela veio, não foi porque eu chamei, ela passou e eu só vi o médico uma semana depois quando eu fui ter alta para ir embora de novo. Mesmo você chamando, o médico, ele não vinha. As enfermeiras de um nível que eu nunca vi, uma coisa horrível daquelas, a ponto de eu chamar a enfermeira e ela dizer: “você pode se levantar” eu mostrei, “eu tô com acesso, como é que eu vou me levantar sozinha para o banheiro? Como que eu levo isso sozinha?” “Ah eu volto”, voltava nada, aí passava mais de hora e ela não aparecia, aí quando eu conseguir enfim um cara, que pegou uma boa veia, era um enfermeiro muito bom, eu estava com aquele acesso infantil, acho que número 24, uma coisa assim, de bebê, porque eles não conseguiam pegar minhas as veias, aí ele disse: “não, eu vou pegar uma veia boa” porque eu estava com dois antibióticos rodando neste negócio fininho, e aí doía, dói demais, era uma sessão de tortura o antibiótico, eu chorava nas horas que rolava o antibiótico."  (Ana Cristina)

 

"Aí teve um dia que eu ainda não tinha entendido que eu que eu estava na UTI, e a menina foi meio ríspida, porque eu agoniada, eu tinha agonia porque o muco vai dando uma sensação de sufocamento. E tiveram até que trocar minha cânula, ela estava com eles e o palavreado é tipo a gíria médica. E como eles falam. “Deu rolha” que é quando o tubo da traqueostomia gruda o muco, fica duro dentro. Tem uma respiração. Três a quatro vezes ao dia eles aspiram o que a gente não expele. Então eles têm que esperar. E às vezes eles quando aspiram, às vezes já gerou essa situação. Quando gera essa situação, não pode deixar porque ali porque infecciona. E aí, eu tive que trocar, mas antes de eu trocar, senti essa falta de ar e eu fiquei agoniada. Eu queria que jogassem soro que eu já tinha aprendido, não falava, mas eu fazia todos os sinais possíveis porque queria botar o soro para amolecer aquilo para poder sugar. Eu não sabia que ele já tinha grudado. E a enfermeira "a senhora não pode". Lá não vinha me atender, então eu fazia uma coisa, arrancava o oxímetro de dedo e arrancava o negócio que aí apitava tudo e eles entravam no meu box, porque eu tinha uma campainha. O único jeito de fazer eles entrarem para me acudir porque estava com falta de ar era essa. E aí, eu fui para sufocar. Eu fiz um escândalo, um escândalo, um escândalo, parecia que eu tinha corrido uma maratona porque era uma falta de ar medonha, entrou fisio, e entrou aquilo era meio de madrugada, foi a coisa mais doida do mundo."  (Elisa)

 

"Não teve uma educação com relação ao uso da máscara, para que que servia o que era, então era muito agressivo o jeito que eles chegavam assim: “vamos fazer”. Teve uma fisioterapeuta que já veio botando a máscara em mim. Depois eu vim entender que era para o meu bem, mas mesmo sendo para o meu bem tem que conversar com o paciente, o processo daquela máscara para que serve? Falei com a minha esposa, se eu soubesse desde o início, óbvio que eu ia usar, eu ia fazer um esforço para usar, como fiz."  (Júlio)

 

“Foi, foi muito, eu falo, eu sofria, eu sofri mesmo, doíam todos os exames, a injeção na minha barriga que eu tomava, doía demais e as pessoas não têm o cuidado sabe, pegam colocam de qualquer maneira. Esse exame que fiz no pulso, meu Deus, dói demais, dói demais. Eu não tenho. Eu sou meio frouxa pra dor, mas assim eu tenho tatuagem, eu suporto, eu fico quieta e deixo, mas dói demais, muito, entendeu. De zero a dez, dói 11, dói demais. E todo o dia, eu fazia duas vezes ao dia, entendeu. No início eu fiquei com fome, e eu sentia fome e eu queria falar com alguém apertava a campainha, minha campanha não funcionava, parecia que estava ali largada, sabe.” (Maria Claudia)

 

Não ser atendida em suas necessidades básicas também foi uma queixa, como se observa na fala de Camila, a seguir:

"Eu acho que nessa estadia do hospital, a rotina do hospital era muito pensada a partir das pautas e das necessidades do serviço. Mas isso não levava muito em conta as nossas necessidades, assim, por exemplo, eu estava no quarto que o banho era à noite. A noite era o que eu chamava de combo do desespero porque era o café da tarde, seguido da janta. Para mim era um período curto entre o café da tarde e a janta, porque eu precisava muito dormir depois das refeições porque eu ficava exausta. Eu não conseguia fazer nada depois que eu comia. Então eu tomava café da tarde já jantava e já tinha que tomar banho e depois eu tinha fisio. Então era um combo de coisas que eu não dava menor conta de fazer tudo ao mesmo tempo e aí se eu optasse: Ah, não vou jantar agora, vou guardar minha janta para comer depois da Fisio... Antes da fisio, passava a faxineira limpando os quartos jogando as comidas fora, porque não podia ficar comida para depois para não juntar lixo, para não estragar e tal. Então aí eu ficava sem jantar. Era muito ruim. Minha saturação caia muito depois do banho. Já estava fraca porque tinha comido, aí tomava um banho, aí o fisio sempre me via num estado assim deplorável porque eu não conseguia fazer nenhum exercício, eu não tinha fôlego, não tinha força para ficar sentada na cama. Nem nada assim. Eu achei muito difícil e eu já tinha falado para várias pessoas que eu não dava conta de tomar banho, comer e fazer fisio ao mesmo tempo, enquanto que eu passava a tarde inteira sem fazer nada. Então poderia fazer a fisio à tarde, mas não, no nosso quarto a fisio era à noite, então foi um período bem difícil."  (Camila do SUS)

 

[...] "As pessoas às vezes não acreditam nas sequelas, ou nas dificuldades que a gente vai tendo. Mesmo durante a minha internação tinha uma profissional de saúde que tinha tido COVID e que não acreditava como a gente estava mais grave do que ela. E aí ela dizia sempre assim, dizia para mim e para as outras três que dividiam o mesmo quarto comigo: “mas vocês não podiam se tratar disso em casa? vocês não podiam com a medicação, com alguma coisa, fazer o tratamento de um outro jeito”. E aí eu disse: - "olha, eu adoraria estar na minha casa agora, mas a White Martins não quis fazer essa tubulação lá no prédio". Eu brincava com ela. Porque também não é só o oxigênio. A gente precisa de outras coisas. Não é só comprar um galão de oxigênio... esqueci o nome... Não é assim que funciona."  (Camila do SUS)

 

Os pacientes reconhecem que a sobrecarga dos profissionais de saúde e o despreparo das instituições hospitalares para manejar uma pandemia foram as principais responsáveis pelas dificuldades atravessadas durante a internação. Alguns relatos sugeriram que os profissionais estavam tomados pelo pânico social provocado pela pandemia.

"As equipes estavam super, como vou dizer, com muito trabalho, eles estavam exaustos, todos, então a gente via, porque eles entravam no meu quarto com aquele equipamento todo de segurança, óculos, máscara, luva mas eu sei o pouco que eu tinha força para conversar com eles e tudo, era sempre assim, tipo eles não podiam dar tanto tanta atenção assim porque estava muito cheio, então eles estavam sobrecarregados também." (Juliana) 

 

"Mas mesmo assim eu via que muitas vezes eles entravam no quarto como se eu fosse um objeto mesmo. Falavam entre si como se eu não estivesse lá, mesmo acordada, mesmo tentando me mexer. É humanizar mesmo. Eu entendo que estava todo mundo, eu não culpo eles, tudo muito novo. Tava todo mundo muito assustado, não tinha vacina na época, estavam ainda nas pesquisas da vacina. Ninguém tinha vacina no mundo. Então tinham muito medo. Era muito medo."  (Paula)

 

“Todo mundo com medo da gente, né? Fica todo mundo com medo de você, até no próprio hospital é tudo novo, os auxiliares com muito medo, ia tirar... colher nosso sangue. É uma sensação... a gente não podia ficar de máscara um segundo, ver eles lá também correndo altos riscos, né? Então todo mundo tinha muito medo.”  (Rosana do SUS)

"Eu sentia assim que eles não queriam nem chegar perto. Entendeu? Nem perto. Eu me lembro que o médico da rotina nem entrou no quarto, ele falou comigo da porta do corredor. Entendeu? 

[...] Eles estavam no caos, mas a sensação que eu tinha que aquilo ali era, eu vou dar a expressão do sentimento que eu tive: parecia que eu estava dentro de um leprosário. Entendeu? A gente estava ali confinado naquele aquário, como eu te falei, e eles não escondiam que era muito complicado.

[...] Uma coisa é você estar trabalhando com uma doença grave como a COVID, uma doença infecciosa altamente transmissível, e estar num ambiente com condições adequadas de trabalho. Outra coisa é você trabalhar num ambiente improvisado. 

[...]  A gente estava num ambiente que era totalmente inadequado para o isolamento. Então, talvez esse fosse também um ponto de questão deles. Poxa! Era uma sala de sutura. Aquilo ali era uma sala de sutura. Como eu te falei que caberia bem duas macas e tinham dez. Eu estava numa cadeira embaixo, mas em cima tinha um paciente aqui, numa maca e, aqui tinha uma outra cadeira, era colado. Era colado, o braço da minha cadeira com o braço da outra cadeira da outra pessoa, eu encostava a minha pele na pele da outra pessoa se a gente botasse o braço ao mesmo tempo. (Eduardo)

 

Outra questão abordada, foi à falta de atenção de alguns profissionais na administração de medicamentos.dado ao caráter caótico, que marcou o início da pandemia em 2020,   

“Mas a equipe ela por medo mesmo, em alguns momentos eu me senti sozinha, eu tive uma assistência mais, não posso dizer negligência, mas, mais afastada do que o ideal, eu pude perceber o quanto um evento adverso ele é fácil de acontecer porque eu fui hospitalizada, mas não precisei de Terapia Intensiva, e todos os dias uma profissional ela passava na rotina da minha enfermaria e perguntava pra mim 'Você veio da UTI, não é mesmo? ', eu dizia 'Não Doutora, eu não vim da UTI'. No momento da minha admissão eu informei, eu tenho reação extrapiramidal a plasil, e mesmo assim, mesmo informando que eu tinha reação extrapiramidal a plasil, foi preparado pra mim por 5x esse medicamento, então veja que a chance de uma administração incorreta de um medicamento, ela ficou ali na minha frente, ali latente.” (Mábia do SUS)

Além disso, uma situação semelhante aconteceu com Bárbara, que sentiu que estava entre a vida e a morte, na transferência para o hospital:

“Olhe só, quando eu cheguei lá, até meu transporte pra lá pra o Couto Maia foi dificultoso, porque pra eu só transportar do Mãe Ilda pra o carro, pra ambulância, eu passei por uma situação muito constrangedora, porque eu precisei de oxigênio e não tinha, eu fiquei sem ar por uns 3 minutos pensei que eu ia morrer, pedindo socorro, sem conseguir falar, os guardas, os porteiros nem tchum pra mim, me deram as costas e aí do nada a enfermeira que ia me acompanhar veio correndo e ligou o oxigênio, talvez eu não tivesse nem viva... foi segundos... eu não me esqueço disso, ela ligou e aí eu voltei a respirar, aí foi que ela seguiu e quando chegou lá, no meio do caminho na estrada pra lá pro Couto Maia aqui do Curuzu pra Cajazeiras foi uma estrada, uma viagem. Quando chegou lá ela chegando lá eu já senti o oxigênio indo embora, eu fiquei calma porque se eu ficasse agitada talvez o fôlego ficasse faltando e ali já tava indo embora, acabando, aí ela abriu a porta da... da maca, da ambulância e falou: 'Bárbara, tem ainda oxigênio?’ Eu disse: ‘acabou’, ela: ‘fique tranquila’ eu aí nem me levantei, continuei deitada, ela foi lá providenciar e o porteiro do Couto Maia falou: ‘ela só pode entrar quando ela tiver autorizada aqui o cadastro dela completo’ aí ela pegou e falou com ele do oxigênio, aí ele falou: ‘o oxigênio a gente pode dar e trouxe o oxigênio’, aí pronto, aí eu comecei a ter vida novamente e esperei pra poder entrar. (Bárbara do SUS)