6.3 Mensagem para profissionais de saúde

Temas

O adoecimento é uma experiência mobilizadora, seja pelos significados socioculturais ou pelas percepções que desencadeiam na pessoa. Se tratando de uma doença como a covid-19, que tem como uma das suas principais características a subtração do mundo externo e das pessoas amadas devido a necessidade de isolamento do paciente ao longo da experiência de adoecimento, além de ser uma doença altamente estigmatizante e com evolução incerta. Nesse sentido, torna-se importante o acolhimento e o apoio por parte dos profissionais de saúde, com quem adoece e precisa de internação em um ambiente de alta complexidade. Os entrevistados lembraram da importância do acolhimento ao paciente internado, como é o caso da entrevistada Vera Lúcia: 

“Digo para eles assim, dar atenção, entendeu? Muita atenção ao paciente. Porque eles estão ali, mas estão precisando de amor, de conversa, conversar um pouquinho com eles, pergunta ‘está tudo bem? A família está lá’. Fala sobre a família dele, né? Porque tenho certeza, a família vem na porta te perguntar pelo paciente, entendeu? Como a minha vinha, entendeu? Então, dar atenção, conversar, entendeu? Porque eles precisam de amor. A pessoa que está em cima de uma cama, em cima do seu leito, está precisando de amor, entendeu?”

A entrevistada Vânia, que adoeceu em abril de 2021, lembra aos profissionais de saúde: “Eu diria para ter mais paciência. Paciência e cuidar o melhor possível”. A entrevistada Juliana, que também é profissional de saúde, apesar de não atuante ao longo da pandemia, aconselha aos profissionais de saúde sobre uma postura empática com o paciente com covid-19, diante da complexidade da doença.

“Primeiro de tudo, tenham empatia porque é o amor de alguém que está ali, é um pai ou uma mãe ou um filho, um marido. E, assim, é muito doloroso. Pra mim COVID é o seguinte, é a doença da tristeza, porque você se isola de todo mundo. Você está mal e para não passar isso para outra pessoa você se isola, você fica longe das pessoas que você ama, está longe do seu trabalho, longe de tudo que você gosta. Então já é uma coisa tão difícil para um paciente abdicar disso tudo e estar no hospital. Então assim, eu espero que a equipe, e os profissionais em geral, porque a gente engloba também o pessoal da limpeza, o pessoal da copa, o recepcionista da clínica, o segurança, o maqueiro. Então assim, que eles tenham empatia, que eles cuidem bem, que mesmo que seja um dia péssimo para eles no trabalho, está sendo um dia muito pior para quem está internado. [...] Então é isso, peço que as pessoas tenham empatia e que se cuidem também, para não precisar estarem ali também como pacientes.”

 

Mábia, que também é profissional de saúde, menciona que durante a própria internação teve a oportunidade de reforçar a importância da postura empática com suas colegas de profissão, reforçando o aspecto da vulnerabilidade e fragilidade dos pacientes durante a internação. “Eu tive até uma oportunidade de conversar com parte da equipe das minhas colegas, e eu conversei com elas, eu disse pra elas assim: 'Eu sei que vocês estão com medo, eu sei que vocês deixaram a família de vocês para estarem aqui, mas eu também deixei a minha família e adoeci, a gente não pede pra adoecer, então nesse momento, que eu sou uma colega, e estou em uma posição de fragilidade, eu peço que vocês olhem pra mim como se estivesse olhando para vocês, porque hoje sou eu, mas amanhã pode ser uma de vocês, e vocês vão precisar de uma assistência cuidadosa, de um olhar humanizado, no seu momento de cuidado'... Quando a gente se coloca no lugar do outro, e acho que a conduta muda, porque se fosse eu, se fosse meu filho, se fosse minha mãe, será que eu deixaria ela sem medicamento? Será que eu deixaria ela sem tomar banho? Será que eu deixaria sem comida? Será que eu não checaria o prontuário e veria que essa paciente é alérgica? Será que eu prepararia um medicamento errado? Essa mensagem que eu tentei passar e que eu deixo também, porque essa doença ela não avisa, ela não tem cara, não tem cor, ela não tem classe, ela pode chegar pra qualquer um.”

 

“Sejam humanos, sejam humanos. Para quem está ali às vezes não é bom, mas para quem está ali deve ser muito pior. Deve ser muito pior. Então, vamos ser humanos que a gente está tratando de pessoas e seres humanos. Isso é muito importante. Da mesma forma como eu me senti acolhido, eu acho que as pessoas quando se sentem acolhidas, elas se sentem melhor, tem uma probabilidade maior de cura melhora. Eu acho que é por aí”. Luiz, que permaneceu 114 dias internado em um hospital privado em março de 2021, lembra que o acolhimento e a empatia traduzida em cuidado podem impactar na evolução clínica do paciente com covid-19. Eduardo, médico e professor, aconselha que os profissionais de saúde olhem de forma integral e humanizada o paciente: “Primeiro que eles olhem o ser humano e não a doença. Eu acho que isso no meu caso, graças a Deus, eu tive uma equipe que olhou para o Eduardo e não para o paciente com COVID. Então, a humanização é muito importante.” E ele completa:

"Então, que os profissionais possam ter essa empatia. Porque essa fronteira é muito tênue. Uma semana antes eu estava do lado dos profissionais. De uma hora para outra, de forma involuntária, porque não é você que se coloca, você é jogado ali. Eu fui lançado para o outro lado da cortina, a fragilidade humana, como eu me vi sendo banhado. Eu não tinha condições de ir tomar um banho. Eu me lembro que eu ficava de fralda. Então, por exemplo, urinar eu urinava no patinho, fazia a hora que eu queria ali. Mas, às vezes, ok que eram 30 leitos, mas eu era o único, o único lúcido. Eu evacuava e eles não conseguiam trocar imediatamente. Eu chamava, e tinha que esperar meia hora, quarenta minutos. Então tinha que me virar para não ficar com aquilo me incomodando, mas ter paciência, para você ver a condição de fragilidade que a gente tem de não conseguir ter competência, autossuficiência, independência para realizar as suas eliminações fisiológicas, vesico-intestinais sem o auxílio de alguém. Então é ter empatia, é isso que eu recomendo aos profissionais de saúde. Empatia sempre.”

 

Maria Claudia, internada em um hospital privado em setembro de 2020, nos contou sobre as diversas dificuldades em sua internação. Diante disso, também reforça a importância do cuidado humanizado e do entendimento que é um ser humano cuidando de outro ser humano: “se coloca no lugar do paciente, sabe? Que um dia eles podem ser pacientes. Se botar muito no lugar do paciente. Como é que eles queriam que eles fossem tratados, se eles estivessem ali, entendeu?”. José Luciano ainda enfatiza a importância desse cuidado se refletir também em algum grau de contato físico, muito deteriorado pelas medidas preventivas da COVID-19, “nos dê carinho, que é o que a gente precisa, tanto quanto o tratamento. A gente precisa de muito, muito carinho mesmo. Até uma mãozinha assim na cabeça é uma maravilha.” Paula, que permaneceu no CTI por 23 dias, compartilhou seus momentos de ansiedade e angústia e aconselha aos profissionais de saúde a olharem para o paciente e suas necessidades existenciais:

“De que as pessoas estão ali, elas estão ali dentro de uma rotina de trabalho, mas que elas estão acostumadas a viver com essa questão da vida e da morte. [...] E entender que são muitas pessoas que tão vivendo aquela dúvida de que se você vai realmente sair dali viva, se vai sair dali com alguma sequela grave. E assim, só um olhar, só um olhar assim, de escutar o que foi que você quer, só isso basta, muito simples, muito simples assim, não agir como se a pessoa não tivesse mais ali, mesmo se ela tiver sedada, eu acho, nesse sentido, a gente não sentir, igual eu me sentia, vão desocupar o quarto para outra pessoa entrar”.

Augusto, que permaneceu internado em um hospital privado no Rio de Janeiro, relembra os aspectos emocionais do paciente com covid-19 e como a medicina tem mudado sua forma de ver o paciente. Também aconselha que aconteça o encontro entre profissional de saúde e paciente de forma humana: 

“Então, assim, se não é a tua praia, saia desse lugar. Não cabe mais o mundo para as pessoas que são insensíveis em relação ao outro. Não existe mais mundo pra esse lugar. Vai fazer, vai cuidar de planta, de botânica. Agora não entra nesse lugar, o lugar do outro, é um lugar muito sério, um lugar de muita dor. E você é quem está em um hospital, médico, enfermeiros e ninguém está aí porque quer, não estou na academia, eu estou ali porque eu estou enfermo. Eu já estou ali psicologicamente abalado. Então, se você não consegue perceber um pouco isso do que as mães têm, de um coração ali que está batendo, que não é o teu, sai desse lugar. Não existe mais a medicina tratada como uma estatística. Por mais que alguns planos de saúde estejam querendo te entubar isso. Não dá. Você não precisa de muito, as vezes é só ouvir alguém, encostar em alguém, como encostar e falar eu estou aqui, só isso. Era a voz de Deus”.

 

Os profissionais de saúde se sacrificaram muito para cuidar da população durante a pandemia de covid-19 e até mesmo a saúde em muitos casos foi afetada. Devido ao excesso de trabalho que nesse período atingiu níveis nunca antes vividos, somado às condições estressantes e imprevisíveis da pandemia, alguns pacientes também referiram cuidado não somente ao paciente internado por covid-19, mas também ao profissional de saúde. Eles pontuaram sobre a necessidade do profissional manter atitudes de autocuidado para não adoecer. Márcia Cristina, técnica de enfermagem, aconselha que na área da saúde, para cuidar do outro é necessário primeiro cuidar de si próprio:

“Que a gente também é ser humano e que a gente também precisa se cuidar, porque a gente cuida de muita gente, a gente esquece de se cuidar. Isso é verdade, ‘ah, amanhã’ e o amanhã é hoje. Então, assim, quando você vê agora profissionais de saúde falando de problema psicológico e tudo mais por conta da COVID, não é. Porque a sobrecarga já existe há muito tempo. E quando a gente se viu recluso, com sobrecarga de trabalho, perdendo amigos, perdendo familiares, a gente não teve condição de assimilar tudo isso. Então, assim, eu falo até por mim também. A gente, enquanto profissional de saúde, a gente tem que se cuidar. Entendeu? É pensar que não existo amanhã, é sempre hoje”.

 

A nutricionista Kátia, que permaneceu 13 dias internada em um hospital público no Rio de Janeiro em dezembro de 2020, aconselha: “Para o profissional, eu diria: ‘cuidem-se também’. Vocês cuidam da gente, mas cuidem-se também. Porque eu vi muito médico adoecer também. Muito médico cuidou de mim doente. Às vezes, sabe, tem que dar o plantão. Tinha um médico que estava cuidando de mim, ele estava com COVID pela terceira vez, trabalhando”. Camila trabalha na área da saúde e também reforça a necessidade do profissional se cuidar. Relembra os momentos intensos vivenciados por eles, no ano de 2020 e 2021, quando havia relativo desconhecimento sobre a doença.

“Talvez eu desse um conselho para os profissionais encontrarem um tempo para se cuidar, não só quando tiver doente. Se cuidarem antes de ficarem doentes. É muito pesado a gente estar no serviço ultimamente. Sempre foi, mas ultimamente está pior. Você vê os amigos adoecendo, você também adoece, você também sabe de pessoas que já tiveram duas, três vezes COVID mesmo vacinado”.

Janilda, também da área da saúde, relembra sua experiência e compartilha formas de autocuidado aos profissionais de saúde:

“Cara, tudo o que tinha que ser feito acho que eu fiz. Eu cheguei em casa, eu tirava as roupas na porta de casa, eu fiz a higiene. Eu acho que hoje o profissional tem que estar muito atento para não extrapolar na sua carga horária. Que a gente sempre extrapola. Cuidado com o excesso do cafezinho e do salgadinho porque a gente esquece dessa alimentação saudável. Escolha um dia da semana para você dedicar a você uma prática de alguma atividade física. Valorize a noite de sono quando você puder. Eu trabalhei vinte anos a noite, hoje eu vejo como é bom esse conforto da sua casa. Aquilo que te irrita, que tira do sério, se você não pode mudar então tenta fazer cara de estátua, tenta ignorar, passa por cima, deixa pra lá, revela. Tenta cumprir o seu horário com qualidade. Vale a pena não”. 

 

E Carlos Eduardo, aconselha a levar a sério: “Bom, é se cuidar, tá? Trabalhar com seriedade, porque o vírus ainda está aí, tá? E ele mata mesmo. Então leva a sério, trabalhe com responsabilidade porque o negócio ainda não acabou. E a coisa é muito séria. E mata mesmo”. Júlio, psicólogo de formação, compartilha sua impressão como profissional da saúde e reforça a necessidade do profissional da assistência se cuidar, principalmente emocionalmente: “Mas o que eu tenho para falar do pessoal da saúde é só agradecimento, é que eles também precisam cuidar da saúde deles. E eles estão, muitos estão, tá professora, muitos estão procurando a psicologia, assim estão procurando mesmo, partindo deles, não é psicologia que está indo atrás não, são os próprios médicos, enfermeiros que estão procurando psicólogos, eles estão num esgotamento que a gente não tem noção”.

Outros entrevistados ao serem perguntados sobre a mensagem para profissionais de saúde, aproveitaram a oportunidade para expressar sua imensa gratidão. Essa gratidão se estende além dos médicos e enfermeiros, mas para a equipe multidisciplinar da UTI e das enfermarias, como também a equipe de serviços gerais e funcionários do hospital. José Luiz compartilha: “Eu não daria conselhos, eu daria agradecimento. Vocês não tem que ter conselho, vocês têm que ter agradecimento”. Michael Douglas nos conta sobre sua experiência no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho - HUCFF e agradece imensamente:

“Eu, se eu pudesse que vocês tivessem a capacidade de entrar no meu coração para vocês saberem a gratidão que eu tenho por vocês, médicos, enfermeiros, anestesistas, o pessoal da limpeza, todos os que me ajudaram ali nesse momento tão difícil. Eu sou muito grato a vocês. A equipe médica que me ajudou, sei que vocês estudam para isso, porém, a equipe aqui não foi só pelo profissionalismo, mas sim pela vontade de salvar uma vida, sabe? Isso foi fundamental, foi fundamental. Eu via a vontade, o empenho das pessoas realmente querer me salvar. A vontade de ajudar: ‘Não, ele vai, vai sobreviver. Você é um vencedor’. Então eu, Michael, sou muito grato a todos vocês. Eu queria que, se vocês se lembrassem de mim, quem me atendeu, muito obrigado, muito obrigado mesmo, gratidão sempre pelo que vocês fizeram por mim. Sou muito grato a vocês. Claro que sou grato, principalmente a Deus, primeiramente a Ele, mas depois a vocês, que foi Deus que deu a perspicácia e a sabedoria para vocês de verdade, muito obrigado, meu reconhecimento para vocês, ta bom”.

 

Margareth, permaneceu 10 dias internada na semi-intensiva de um hospital privado em São Paulo e teve seu marido hospitalizado na UTI do mesmo lugar. Diante dessa experiência, ela compartilha seu sentimento de gratidão:

“Ah, eu diria, meu Deus, eu tenho tanta gratidão aos nossos profissionais de saúde que eu me emociono toda vez que eu penso neles. Eu me lembro quando eu levei o meu marido lá de ambulância para o hospital, gente aquele socorrista foram anjos, quando eu entrei no hospital que eu fui internada foram outros anjos socorrendo, o que eu diria pra um profissional que seja médico, enfermeiro, fisioterapeuta, todos aqueles que estão ali na linha de frente, eu tenho uma gratidão muito grande a cada um de vocês e eu oro a Deus para que vocês sejam protegidos que o senhor envie os anjos deles pra cobrir vocês, porque vocês são os nossos anjos, estão guardando e cuidando de cada um. Muito obrigada por todos os trabalhos que vocês tem feito independente de que cidade, independente de classe social, vocês estão salvando todas as vidas que estão na mão de vocês, muito obrigada, é isso”.

Miguel, também compartilha seu sentimento de gratidão aos profissionais de saúde: “Existe uma palavra que traduz o sentimento de cada pessoa que sai de uma situação dessa que é “obrigado”. Nelson, envia  sua mensagem: “Que cuida? [bate palmas] Agradecer. A Deus, por ter colocado vocês na minha vida”.

Alcione, médico, que atuou na linha de frente da pandemia, permaneceu 14 dias internado no HUCFF. Lembra de alguns colegas que perceberam a necessidade de profissionais de saúde diante do alto número de casos da doença, e com isso expressa sua gratidão e reconhecimento:

“Para profissionais da linha de frente. Alguns, muitos profissionais que procuraram trabalhar na linha de frente durante a doença, que eram pessoas que não trabalhavam com emergência e com CTI, que sentiram a vontade de ir para esse campo. Achei isso muito legal, que são pessoas que querem fazer a diferença na vida das outras e querem poder ajudar mesmo. Tiveram profissionais que fizeram o caminho contrário, medo de adoecimento, mudaram de cargo, de profissão, de trabalho para se afastar, alguns se licenciaram para não ter contato. Então é assim. Mas é um sentimento de admiração, de gratidão por estarem fazendo o melhor, trabalhando para que as pessoas sobrevivam, e que tenham um tratamento adequado de qualidade e tenham oportunidades depois de fazer outras ações, de ajudar de outras formas. Então é assim, é uma sensação de gratidão mesmo”

 

Ao longo das entrevistas, o reconhecimento da ação dos profissionais de saúde, equipes médicas e assistenciais foi exaltado. Alguns entrevistados comentaram que o Sistema de Saúde Unificado - SUS, foi vital no enfrentamento do novo coronavírus, como o caso do Reneé, que permaneceu internado 82 dias no HUCFF, em outubro de 2020: 

“Se eu pudesse hoje em dia junto ao HU reunir toda a equipe da época do CTI, da COVID-19, reunir a todos para fazer uma homenagem, eu faria. Porque para mim, dentro de mim é uma… Se as pessoas que estão lá fora conhecessem a equipe, o afinco, a dedicação que eles tiveram de 48 horas, às vezes até demais de não saírem do hospital para dedicar aquele momento que a gente tá ali passando para ser entubado, eles dariam mais valor, a toda a equipe de enfermagem, médica, a equipe de limpeza que também estava ali se arriscando limpando a enfermaria, o CTI, ali se arriscando junto. Então eu tenho muita gratidão a todos. Se eu pudesse fazer essa homenagem, eu faria. Eu faria isso sim. Eu acho que é… é um tipo de gratidão que nós temos, o reconhecimento. O reconhecimento a toda equipe, psicologia e toda, toda, fisioterapia, que a fisioterapeuta eles iam a todo momento, psicologia também ia a todo momento para conversar e saber como é que nós estávamos passando. Então toda a equipe juntava toda a equipe e faria uma homenagem, eu faria sim.  Estão de parabéns. Estão de parabéns!”.

 

Sérgio, que vivenciou a internação em duas instituições, primeiro sendo internado em um hospital privado, posteriormente sendo direcionado ao HUCFF, reconhece o esforço e dedicação dos profissionais de saúde que atuam no SUS: 

“E a admiração pela coragem deles de estar ali, se colocando, de estar trabalhando, que eu vi, eu vi pessoas diversas vezes, que trocavam de plantão e que até faziam plantão extra, colocando a vida em risco. Então, essas coisas que eu vi foi pena, senti pena não, não por eles, pelo trabalho, mas pena de eles estarem se colocando na história que pegam né? E também por gratidão por eles, por estar fazendo aquilo ali, por amor à profissão deles. Se arriscando, arriscando a vida deles, arriscando familiares. Porque, quando sai dali, por mais que você tenha um tratamento, você sai levando algo para casa, né? E eles faziam tudo aquilo ali sem peso nenhum, como uma coisa normal. E acho que por isso Deus protegeu eles, sabe?”

 

Marcial, permaneceu 8 dias internado na semi-intensiva de um hospital privado em São Paulo e reconhece a grandeza dos profissionais de saúde: "Hum, eu falei do..., assim da palavra... então "muito obrigada", piscando assim com luzes com neon, não tenho o que falar, muito obrigada mesmo. Essas pessoas são heróis e heroínas no dia-dia que muitas vezes passam despercebidas. A gente nem presta atenção para essas pessoas, mas essas pessoas são gigantes, gigantes”. Márcio, que adoeceu em março de 2021 e foi internado em um hospital privado na cidade de Niterói, Rio de Janeiro, ressalta a dedicação e reconhece que toda a ação dos profissionais de saúde foi fundamental ao longo da pandemia “Então assim, a mensagem que eu posso passar deles é terem a noção, o quanto eles fazem o bem para as pessoas que se recuperam e até mesmo o conforto que eles conseguiram dar para as pessoas que não conseguiram sobreviver a isso. Então, assim, o que eu posso dizer é que eles são importantíssimos, é um elo de tudo isso que a gente tá vivendo, sem eles a gente não conseguiria ter essa, vamos dizer, essa sobrevivência”.

Desde o início da pandemia de covid-19, tem sido frequente o uso de expressões que remetem a uma analogia entre a pandemia e guerra. Assim o vírus é o “inimigo invisível”, os hospitais são a “linha da frente” e os profissionais de saúde os nossos “heróis" e “guerreiros”, como vemos a seguir na entrevista do participante Ademir, que permaneceu 61 dias internado no HUCFF: “Vou te ser sincero, de uma forma geral, [os profissionais] foram muito guerreiros, cumpriram bem o papel deles.” “Eu acho que realmente esses são nossos heróis”. Esse é o destaque da entrevistada Maria Isabel, que lembra dos riscos que os profissionais de saúde enfrentaram para estar ao lado dos pacientes. 

Viviane que adoeceu logo no início da pandemia, em maio de 2020, viveu momentos extremamente delicados devido à gravidade da sua doença. Relembra o cenário complicado na época do seu adoecimento e expressa sua gratidão: 

“Eu não digo conselho, eu digo que se fortifiquem mais, porque quem está ali na linha de frente é guerreiro por estar ali. Tem pessoas que abandonaram a sua família e o seu lar. Eu só tenho a agradecer a todos os profissionais que realmente se dedicam às pessoas que estão com covid, porque é muito difícil. Se antes era difícil, agora nem tanto porque agora você já pode ver seu familiar. [...] Então eu só tenho a agradecer e que eles continuem aí na guerra pela gente porque sem eles a gente, nós não somos nada também, né? A gente tem que se apegar com Deus e tem que agradecer a eles por tudo que eles fazem pela gente, porque sem eles também a maioria do povo teria morrido.”

 

Wellington, permaneceu 28 dias internado em um hospital privado no Rio de Janeiro e também reconhece todo o esforço além do normal que as equipe de saúde vivenciaram ao longo da pandemia e também o risco diante de uma doença contagiosa: 

“É, eu admiro muito essas pessoas porque elas colocam a vida delas em risco. É engraçado, como a gente ta lá, a gente fica sem máscara, está hospitalizado, fica todo  mundo de máscara, todo muito protegido e você que tá doente, você tá sem máscara, então essas pessoas estão correndo risco colocando a vida delas em risco e são extremamente carinhosas, né? Eu jamais conseguiria viver uma rotina daquelas de tanta pressão, de tanto sofrimento, de algumas conquistas que a gente sabe que tem, umas que melhoram outras que não melhoram e enfim, pessoas que estão no CTI, todos os barulhos que você possa imaginar, pessoas morrendo, outras gemendo, outras gritando. Tinha um que tava do meu lado: ‘eu vou pedir um uber, eu quero ir embora, não sei o que’, cada um com suas loucuras, essas pessoas são muito fortes. Então assim, eu admiro muito elas, agradeço a todos que me atenderam e que não me atenderam porque é muito importante o trabalho que elas desempenham”.

Gilson, que permaneceu 12 dias internado, lúcido, em uma UTI, salienta as inúmeras vidas que existiam ali e as diferentes rotinas de trabalho que os profissionais assumiram para se manterem ativos para cumprir a missão de salvar outras vidas, com múltiplos vínculos de trabalho. Ele salienta a importância de se valorizar e estudar esse fenômeno. “Ao mesmo tempo que é massacrante, ela é rica em detalhes de muitas vidas ali, muita gente, muitas histórias. Muitas pessoas que tão ali tem que ir pra outra, tem que ir pra outra, tem que ir pra outra, faz histórias dos outros hospitais, porque eles eles recebiam num canto, depois iam pra outro, depois iam para três ou quatro hospitais, as mesmas, eles só faziam rodízio praticamente ali dentro, os técnicos principalmente. Então, se ele saiu daquele hospital ele ia pra um outro hospital de alta complexidade, trabalhava no governo do estado, trabalhava na prefeitura e trabalhava ali fazendo um um bico particular… e é difícil imaginar a vida dessas pessoas também, né? Pra salvar a vida de outras pessoas.  É uma realidade não aumentada, né? E eu acho que a pesquisa de vocês é interessante pra ir pinçando esses detalhes, de várias vidas, né? Que foram perdidas e de várias vidas que foram salvas nesse processo inteiro.”

 

Como o Wellington, Maria Verônica, também reconhece todo o cuidado e carinho que os profissionais de saúde tiveram com ela ao longo da sua extensa internação, que durou cerca de 93 dias, em um hospital privado no Rio de Janeiro, logo no início da pandemia em abril de 2020: 

“Primeiro, se eu fosse falar com o profissional de saúde, como eu já falei pra alguns é muito obrigada, muito obrigada pela dedicação, muito obrigada por salvar vidas, não só a minha, mas outras tantas, nem sempre é possível, mas o empenho em salvar vidas é uma coisa que distingue os profissionais, né? Distingue principalmente os profissionais de saúde e acho que eu falo do carinho, né? Porque tudo que se faz com carinho eu acho que o efeito é muito maior, e tudo, desde da pessoa do laboratório que vem tirar sangue procurar a sua veia, mas você não tem mais veia, ela procura te animar e é muito importante pra gente, é muito muito importante o tom de voz, nossa, o tom de voz é fundamental."